No último dia 10 de outubro, a Câmara dos Deputados promoveu a terceira audiência pública para debater o Projeto de Lei 1135/91, de autoria dos ex-deputados Eduardo Jorge e Sandra Starling, que descriminaliza o aborto provocado pela própria gestante ou com o seu consentimento.
É importante ressaltar que, apesar da sociedade ser esmagadoramente contra a transformação do Projeto em lei, uma parcela mínima mostra algum interesse real em comparecer a esses debates para defender suas idéias. Limitam-se aos comentários em blogues e sites, nada fazendo que demonstre uma coerência entre sua posição e suas ações. Quantos entre esses, praticam algum trabalho voluntário voltado às mães carentes ou a crianças abandonadas? Quantos, espontaneamente, praticam alguma ação que possa trazer segurança a essas mulheres e futuras crianças? No momento em que são chamados à ação, a resposta é rápida: “Isso é problema do Estado”.
Muito ou tudo já foi dito entre rodadas de chopes ou em inflamados discursos religiosos. A intenção aqui é tentar mostrar à sociedade que necessitamos de sérias e caudalosas reflexões, antes que cada um tome a sua decisão.
O fato é que entre as mulheres que optam pelo aborto, 82% irão efetivamente praticá-lo. Também é fato que a Internet colocou a prática do aborto no mesmo patamar que o tráfico de drogas: todos sabem aonde encontrar um e outro mas ninguém admite que sabe.
As discussões e posicionamentos sobre o aborto nascem sob o signo da mais pura hipocrisia. Toda mulher, seja de que classe for, corre o risco de ser surpreendida por uma gravidez indesejável. O adjetivo “indesejável” diz tudo, mas nossa tradição rigidamente católica aliada aos novos fanáticos evangélicos – estes últimos com o agravante de carecerem de qualquer substância que possa ser denominada como cérebro, conseguem se superar ao listarem razões que justifiquem a continuidade da peneira à frente do sol.
A cultura em nosso país, que deveria produzir seres pensantes através do hábito da leitura, torna-se a primeira a compactuar com a falta de ponderações lógicas que possam produzir qualquer debate sensato e racional em torno do assunto. O que se vê é uma repetição de idéias pré-concebidas em torno da espécie feminina que, com muito custo, tem tentado igualar sua importância na identidade machista de nossas leis e ações, que não trazem nenhum benefício ao nosso livre raciocínio.
Camisinhas furam, tabelinhas são passíveis de erros e anticoncepcionais provocam sérios danos à saúde da mulher. O único método anticonceptivo, 100% eficiente, é a vasectomia. A operação do aborto e os remédios que existem com esta finalidade, causam menos riscos à mulher que não quer ser mãe do que um filho, a julgar pela quantidade de pesquisas científicas que não deixam nenhuma dúvida quanto aos diferentes males provocados pelo nervosismo. Mostrem-me um mãe que não demonstre infinitas preocupações com seus rebentos, estando quase sempre à beira do estresse, principalmente quando a “surpresa” atinge a fase da “aborrecência”. Essa mãe não existe e, se existisse seria uma prova viva do quanto a criminalização do liberdade de escolha é absurda.
Não praticar o sexo seria uma outra solução. Convenhamos que, através dos meios de comunicação, estamos totalmente envolvidos pela ordem de fazer sexo. São estonteantes mulheres semi nuas convidando homens a desejá-las e convidando o público feminino a imitá-las; músicas que incentivam ao tesão de qualquer ser a qualquer coisa que possa dar prazer; o tal secreto orgasmo que deve ser buscado e alcançado a qualquer custo, ainda que para alcançar tal objetivo, a traição tenha que entrar em cena.
Sexo, sexo, sexo! Com tanto chamado ao sexo como podemos ter alguma moral para ser contra ou a favor da decisão da mulher? Quem nos deu a prerrogativa de julgar alguém que tem milhares de motivos para não querer ser mãe? Pudéssemos optar, antes de nosso nascimento, como gostaríamos de vir ao mundo, seria impossível surgir alguém que respondesse “como um indesejável” ou “sem amor”.
A hipocrisia torna-se, por si só, o reverso de sua defesa, a partir do momento que põe o respeito à vida em primeiro lugar. É sabido que, para haver respeito é preciso chegar antes o amor. "Indesejável" jamais será sinônimo de amor.
Aloha! Namastê! Sawabona!